Desbravando a gastronomia brasileiríssima do Micaela.

Eu já queria ir faz tempo ao restaurante Micaela, e finalmente esta semana o universo ouviu as minhas preces! A casa que leva o nome da bisavó espanhola do chef e proprietário Fabio Vieira, é um sobrado da década de 1940, numa esquina anônima dos Jardins. O lugar é afetivo: pouco décor, alguns vasos espalhados pelas paredes de tijolos, mesinhas de madeira; no segundo andar você também irá se deparar com uma imagem de N. Sra. Aparecida talhada na madeira e alguns quadros que não afetarão os seus olhos. Aqui, menos é mais.

Na cozinha são proferidas receitas afetivas da família, com pitadas autorais do chef, que foi influenciado também por técnicas da cozinha catalã durante sua temporada pelo icônico restaurante Hofmann de Barcelona – uma estrela no Guia Michelin.

Iniciamos o nosso jantar com Biscoitão Mineiro (R$38,00), um bolinho achatado à base de polvilho azedo, com textura de pão de queijo, só que um pouquinho mais macio e elástico. O recheio encorpado da carne de sol desfiada causa a boa sensação palatina. Tem uma pegadinha mineira, com toque aromático, começamos bem!

Outra entrada genuinamente brasileira, os Pasteizinhos Micaela (R$29,90), também devem ser provados. Primeiramente porque esta entrada aparece em um dos mais bonitos visuais que eu já vi até hoje em se tratando de tal iguaria, e além disso vieram recheados com ovos literalmente perfeitos e finalizados com farofa de torresmo, que dá o tom da receita. Se o teu paladar é sensível, este talvez não seja um pedido certeiro, aqui cada ingrediente desponta em seu nível máximo de sabor.

Já com os Pintxos de Tapioca (R$32,00), tivemos um pouquinho de desapontamento. Eu amei a consistência dos pedacinhos da massa de tapioca, estavam macios, era bom senti-los ao mastigar, mas a combinação com o recheio de shimeji com requeijão do norte e rúcula, para mim, não deu liga, foi uma sensação palatina insossa. Talvez uma outra conjunção trouxesse vida aos pintxos.

Pratos principais? O primeiro foi Picadinho com arroz canastra (R$52,00), chegou lindo à mesa, o filé mignon macio e bem picadinho exalava um aroma com vida, e ganhou contraste com a farofa fria, úmida e colorida. O arroz feito com queijo canastra merece atenção especial, se prová-lo separadamente sentirá a afetividade vinda de diversas formas: na sua textura, no sabor e nas sensações reconfortantes que lhe causará. Em mim enquanto o provava, me lembrava dos arrozes de forno que minha mãe fazia aos domingos, uma ótima sensação!

Outra receita imperdível para quem busca sabores mais profundos da gastronomia brasileira é o Risoto de Tucupi com costelinha de Tambaqui (R$75,00). Foi neste prato que eu saquei a profunda intimidade que o chef possui com os alimentos que trabalha em sua cozinha. O risoto cremoso dava uma sensação refrescante e uma leve dormência nos lábios (devido à presença do jambu). Difícil explicar o sabor e os efeitos ao experimentar, pois a sensação é única. O peixe amazônico estava macio, gorduroso e de sabor acentuado, uma pena que você não encontra este corte em muitos restaurantes. Como aqui está disponível, para os adoradores de um peixe de água doce o experimento é imperdível.

Mas o nosso eleito da noite ficou por conta do Baião de Costelinha na lata com ovos (R$49,90), dá até para arriscar que foi a mistura brasileira com mais desenvoltura que provei nos últimos tempos. A releitura do famoso prato nordestino é oferecida aqui numa versão mais sofisticada, aromática e texturizada. A sinergia entre os ingredientes era única! Os saborosos arroz, feijão e farofa davam o toque de conforto da comida da infância, do interior, e a costelinha cozida à perfeição, desmanchando em sabores untuosos, dava o golpe final de teor e textura. Imperdível!

De todas as sobremesas, a imbatível foi o Bolo Gelado de coco queimado (R$26,00), mergulhado em um intenso e primoroso creme de caramelo quente com chocolate branco com puxuri (semente conhecida como “cheiro de anjo”, que dá um aroma doce e perfumado). A cada garfada uma explosão de sabores em suas diversas esferas. Quero comer mais uma vez!

Lugar bacanérrimo, ideal para levar um amigo gringo ou que mora fora do país para conhecer ou se atualizar dos sabores da nossa terra, sempre tão autênticos e sensorialmente intensos. O serviço também é bastante simpático e os preços justificam o que irão encontrar por aqui. O Micaela me surpreendeu em todos os aspectos afetivos possíveis. Recomendadíssimo!

Serviço
Restaurante Micaela
Rua José Maria Lisboa, 228 – (11) 3473-6849
Horários de Funcionamento: De segunda à sexta: almoço 12h às 15h30 e também das 19h às 23h.
Sábado: almoço 12h às 16h30 e também das 19h às 23h.
Domingo: fechado

Credito Imagens: Roberto Salgado

 

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